paraiso
quando encontrar teu lugar
crescerão águias nos olhos
famintas pela face do cordeiro
os rios que hoje te afogam
serão estradas para o paraíso
voará como querubins
verá o horizonte sumir a cada sol
será dama e rei no mesmo tabuleiro
será bailarina no gume da adaga
será codorniz para tua fome
a lembrança se converterá
em semente queimada
em cicatriz da antiga morada
e a águia nos teus olhos
o levará ao cume do mundo
e serás enfim serpente livre
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vegetal
depois de você uma convicção:
é certo que o tempo
é uma questão vegetal
dessas ervas raríssimas para se presentear
os amigos de trinta anos cabais
e suas raízes tão profundas e brancas que
encerram todas e quaisquer filosofias
mineral restou somente a curiosidade
essa vadia assanhada que insiste
roer nossos ossinhos

 

 

vicencia04-bx

transformar-se em pepitas de luz dançando no espaço escapando pelas porosidades da imagem. arborescer-se cósmica no alvorecer de si. não cair no abraço folgado da razão ou escorregar no reflexo borrado da verdade. estilhaçar-se em miríade imprecisões e sobreviver eterno enquanto morrem afogados os peixes nas profundezas marinhas. arrancar as palavras da concreção calcária do tempo e transbordar-se em caudalosa loucura

MARIPOSAS AZUIS

mariposa

não sei por que te escolhi e não a um astronauta ou marinheiro. um daqueles marinheiros que estampam os pôsteres em pequenos sebos da xv. talvez seja o meteoro que vi sair da tua cabeça. algo brilhava muito. parecia uma bobina de tesla ou uma aurora sobrenatubureal. talvez o almoço tenha sido exagerado ou eram meus olhos dançando em transe. em dias de gravidez os relógios aumentam as horas e isso me confunde. você tem animais que me encantam. teu sorriso como letreiros digitais mergulham na minha cítrica saliva. talvez seja a água salgada ou esses peixes unicornianos que se afogam numa única gota d’água ou na metade de uma gota d’água vazia. o que gosto em teus animais é que eles costuram seus próprios casacos. talvez seja a tua timidez ou essa falsa ignorância quanto a assuntos cosmo-físicos e matemáticos ou sejam os sete corações que carrega no peito. talvez porque você prestou atenção quanto te ensinei sobre as fatias do tempo e as direções do passado. as mariposas azuis continuam aqui quando você vai embora. talvez eu escolha um marinheiro. talvez eu escolha um astronauta. talvez eu escolha teu animal de estimação. talvez não seja difícil aprender conceitos aprofundados de cosmofísica. talvez eu saiba porque te escolhi. talvez você apenas me ame. talvez eu apenas te queira. talvez as mariposas dancem pra nós hoje à noite.

homens
são como farpas atravessadas pelo desejo
húmus decomposto pela carne do destino
são cavalos cegos galopando pelas beiras
relâmpagos lufados pela existência
homens não são mais que instantes
roendo o futuro que não lhes pertence
aguia
bordar um leão no peito mas
por dentro ao redor do coração
usar o fio da mais bruta montanha
não chorar ou desesperar-se
a dor ergue edifícios mais fortes
a vida não é uma dispensa gorda
a vida é um largo quintal de projeções
algumas vezes um filme chato
um romance sem graça
outras vezes uma mítica águia branca
com olhos turquesa e plumagem cristal
pronta a nos dar sua enorme cabeça

NOVA ESTAÇÃO

menino
não pisam ainda os ventos
sobre as águas e rapidamente
a grama azul se espalha
sobre o mar e as nuvens suspiram
pela terra fértil

é outono e o globo terrestre
se contorce frente ao estranho
linguajar das algas

é frágil o sono dos penhascos
e melancólico o riso dos trovões

a espessura do momento exige
substância vasta, é escasso o vinho
que alimenta as plantas

a erva nova avista grande precipitação
os morcegos se enraízam na terra úmida
fecundando a clausura dos dias

a carruagem da noite se avizinha
ressuscitem os peixes azuis
e os dragões luzentes!

é forte o aroma das cores no cio

chegou o tempo das flores
onde a noite se veste de sol e as palavras
bebem o mais leve leite lunar

chegou o tempo das flores
onde brota o amor-menino que se deita
sem receio em cama feita de corais

ORGANOLÉPTICO

organoleptico
existir nos cristais de gelo suspensos no ar 
ou bordar pequenas ventoinhas 
no limite entre explosão e ponto de ebulição
ser algo que não seja descartável
ser um ente que encapele espantos
ser qualquer coisa com aparência de nuvem
ser coisa volátil, suja, excitante
existir nos precipícios piroclásticos
ser acúmulo de alegria num respirar eletrônico
existir no espaço entre os universos
existir entre olhares, entre sexos, entre vãos 
e placas de não pise na grama
ser a cama elástica da ironia
e se afogar num beijo de língua