PONTES

fim

toda a vida me disseram que os dias são águas
que rebentam num rio quando nascemos
sobre o qual os instantes são camadas pelures
rumando em direção a mares sem fim
se apegando às pontes que construímos
e revestimos de linguagem mineral

em todos esses dias os sabores não mudam
a fruta é doce quando a boca não é amarga
cada margem traz em si o espelho da outra
o céu e a terra reverberam o mesmo sol
as gotas de chuva alimentam as águas
as quedas curam as comissuras das horas

quem souber a profundidade das águas
conhecerá a profundeza das palavras
porejará na face o leite de uma vida feliz
colherá os mistérios descarnados dos seres

o curso natural das águas descarta calendários
ignora os prazos lunares e terrestres
conhece as fissuras do solo que abraça
e no secreto dos segundos nos brinda
nos devolve o milagre das substâncias vegetais
nos restitui o que nunca nos foi dado
o líquen desmedido da vida esplanada
incrivelmente vasto como o cochilo do céu
diversamente azul como a superfície do rio
os dias são água, os dias são água

 

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