as
envoltos em assombrações
dormimos no peito frio um
                 do outro
da cicatriz no teu mamilo
                 esquerdo
nascem galáxias

o contraste é perfeito
entre o amarelo gasto do céu
e a brancura higiênica dos teus gestos
quando finge falar a verdade

as vezes somos assim
fantoches arcaicos
ou
um desenho animado traçado
pelos raios do sol contra a maré

tudo o que acontece
enquanto respiramos
             é descartável

a realidade tem cor de concreto
um cinza azulado
                    feito lama

o essencial é o sangue
é a temperatura do sangue
que nos abraça e banha o mundo

somos dois corpos
não somos fantasmas
talvez um tipo de encenação

e nossa coroa será ganha
quando esquecermos
a palavra         rotina
e no lugar
dispararmos um tiro
contra o peito um
               do outro

DSC_0362

abro a janela e nesse fio de sonho
onde a luz é prata e brilha eterna
o amanhã me encara

uma pedrada na fronte
e vejo a coragem do mar

além-mar
vejo as histórias que te vestem
os homens que te enfeitam a face
e o discurso romântico decorado

é triste uma vida assim
rachada pela pouca luz
que atravessa teu pesado casaco
irradiada pelo abalo dos outros
e curta, pouco vasta
à espreita de um novo sopro

o mar é forte e seus braços
tatuados de espuma branca
me lançam às imediações da noite
a superfície é quebradiça

lembro-me da mesa desajustada
o cheiro, o chão gelado do dia
que te conheci nas cabines da paulista

ser uma gaivota longe da costa
um avião deslizando sem gravidade
uma cidade sem portas abertas

abro a janela e nesse fio de sonho
percebo que o percurso
é o triunfo do nosso amor

 

maos 
 fotografias dos nossos corpos
 gastas e jogadas ao tempo
 fracas como um gatilho
 monumento ao esquecimento
 mas por você ainda pulsarei
 te amarei pela sua tristeza
 guardarei tua lembrança na pele
 e se um dia ousar te esquecer
 e a memória em névoa se converter
 cravarei nossos corpos no espanto
 plantarei um jardim de papoulas
 a florescer imagens de nossos iguais
 fotografias dos nossos corpos
 mentiras pra nunca esquecer
ph18
eu nasci e nada fiz
além de abrir caminhos
a vida essa é essa série
de desassossegos
dias cheios de névoa e
plantas carnívoras invisíveis
e tudo o que significa é ir
ir ao encontro do voo
achar no meio da treva
o fragmento de alguma razão
talvez estourar os dias calmos
pescar nuvens lamacentas
e arrancar o azul da voz
é transpassar a cova funda
ser um bárbaro não muito feroz
bravejar junto aos cães de prata
inundar a medula de dúvidas
viver forte feito um corvo corça
beber o sangue da madrugada
nenhum amanhã esperar
mas cantar com os pêssegos
rastejar com os poemas vegetais
é ser um cometa certeiro
e a morte esperar sem temer
feito a bola em direção ao goleiro

 

 

HOJE NASCEU UM MONSTRO

monstro
talvez nasceram dois ou três?
quase pedi pra dar teu nome
mas não sei falar monstrês
hoje nasceu um monstro
se eu soubesse falar frânces
pensaria em chateau ou bistrô
ele é bravo e tem cara de fome
eu vejo nele a tua imagem
quase pedi pra dar teu nome
gostaria da homenagem?
hoje nasceu um monstro
e de longe alguém gritou:
pronuncie o nome ou ele some!
e de perto alguém falou:
dê logo o nome ou ele te come!
hoje nasceu um monstro
dei a ele teu codinome
o que lembra teu nome ao contrário
mesmo sendo um tanto ordinário
me lembra você de quatro
me lembram tuas cuecas brancas
me lembra teu perfume barato
me lembram tuas belas ancas
hoje nasceu um monstro
ele é você dormindo
ele é você bebendo
ele é você sorrindo
cavalo
ele era uma pedra de três camadas
uma era vermelha
outra era cor de pedra
e a última era imaginação
seu corpo era frio
seus olhos eram asfalto
seus cabelos eram musgo negro
ele era uma pedra de três camadas
eram alma, espírito e ficção
falava fogo quando ria água
e carregava um enorme dragão na boca
um dragão de três pedras
ele era uma pedra de três camadas
sua prosa era ironia
seu riso era advertência
sua existência era um milagre mineral

OS DIAS, AS ÁGUAS

fim
toda a vida me disseram que os dias são águas
que rebentam num rio quando nascemos
sobre o qual os instantes são camadas pelures
rumando em direção a mares sem fim
se apegando às pontes que construímos
e revestimos de linguagem mineral
em todos esses dias os sabores não mudam
a fruta é doce quando a boca não é amarga
cada margem traz em si o espelho da outra
o céu e a terra reverberam o mesmo sol
as gotas de chuva alimentam as águas
as quedas curam as comissuras das horas
quem souber a profundidade das águas
conhecerá a profundeza das palavras
porejará na face o leite de uma vida feliz
colherá os mistérios descarnados dos seres
o curso natural das águas descarta calendários
ignora os prazos lunares e terrestres
conhece as fissuras do solo que abraça
e no secreto dos segundos nos brinda
nos devolve o milagre das substâncias vegetais
nos restitui o que nunca nos foi dado
o líquen desmedido da vida esplanada
incrivelmente vasto como o cochilo do céu
diversamente azul como a superfície do rio
os dias são água, os dias são água
repouse um momento nas secas uades
por um só segundo excite a vertigem do corpo
crie raízes com o zoar das grandes cascatas
respire o fresco e salgado perfume do fim
repouse nas falésias do mar que inventei pra você
ouça, ouça! são as águas cobrindo mais uma ponte
paraiso
quando encontrar teu lugar
crescerão águias nos olhos
famintas pela face do cordeiro
os rios que hoje te afogam
serão estradas para o paraíso
voará como querubins
verá o horizonte sumir a cada sol
será dama e rei no mesmo tabuleiro
será bailarina no gume da adaga
será codorniz para tua fome
a lembrança se converterá
em semente queimada
em cicatriz da antiga morada
e a águia nos teus olhos
o levará ao cume do mundo
e serás enfim serpente livre
vegetal
depois de você uma convicção:
é certo que o tempo
é uma questão vegetal
dessas ervas raríssimas para se presentear
os amigos de trinta anos cabais
e suas raízes tão profundas e brancas que
encerram todas e quaisquer filosofias
mineral restou somente a curiosidade
essa vadia assanhada que insiste
roer nossos ossinhos